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domingo, 1 de março de 2015

Mi Buenos Aires Querida - II

Fizemos vários itinerários caminhando para vermos os pontos turísticos mais famosos da capital portenha, quando as distâncias era grande fizemos uso do Subte (metrô), ou do taxi, que é relativamente barato se você esta em 2 ou mais pessoas.

Em uma das nossas incursões fomos conhecer o CAMINITO. O taxista nos deixou na entrada do Caminito, era uma segunda feira, 9 horas da manhã, tudo vazio, até fiquei decepcionado, olhei e pensei: Só isso? Acho que minha decepção estava mais ligada a primeira imagem. Um lugar vazio, pobre, mais parecido com as favelas brasileiras.




Bom, durou muito pouco, bastou caminhar e começar a perceber que ali estava cheio de vida, cores, aromas. Começamos a conversar com os locais, aos poucos os ônibus de turistas foram chegando e o local foi-se enchendo, sendo tomado por pessoas de todos os lugares do mundo. Alas, o Caminito se fazia.

Além de ter adorado o Caminito, o que me chamou mais a atenção foi encontrar uma Pedestrovia na esquina do Caminito com a Rua General Gregorio Araóz de Lamadrid. Nessa esquina do Caminito fizeram na interseção um traffic calming e ao longo da Rua General Gregorio fizeram a implantação de uma faixa segregada para bicicletas.

Interseção do Caminito com a Rua General Gregorio Araóz de Lamadrid


Ciclovia ou pedestrovia?

Como num click, um lampejo, me veio a solução das calçadas brasileiras. Aqui, bem no Caminito, que parecia que iria ser um passeio sem muita graça, veio o presente da minha viagem. Ali estava uma solução barata e eficaz para transformamos as cidades brasileiras.

O que mais me chamava a atenção em Buenos Aires eram as calçadas, largas, bem feitas, sem desníveis, ótimas para a caminhada. De repente encontro uma única calçada com degraus e vejo as pessoas caminhando na rua, na pedestrovia, ops!! ciclovia.

Lembrei-me imediatamente do prof. Enilson Santos da UFRN, que em uma de nossas conversas sobre como melhorar a mobilidade me alertava para a necessidade de avançarmos no leito carroçável se quiséssemos resolver os problemas das calçadas. E, ali no Caminito, se materializava nossa conversa.

Temos que ter coragem de mudar nossa abordagem para que os direitos sejam equivalentes entre pedestres, não motorizados e motorizados. Estes 100 anos de veículos automotores já nos massacraram o que tinham de nos massacrar. É hora de reclamarmos nossos espaços.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Mi querida Buenos Aires 

 Demorei muito mais do que devia para vir conhecer Buenos Aires, se soubesse que a cidade portenha era o que é, teria vindo muito antes. Caminhar pelas avenidas, ruas e becos admirando a arquitetura dos prédios, o desenho das casas, os sons e odores diversos dos cafés é prazeroso, uma delícia. 

Caminhamos muito, muito mesmo, estávamos hospedados perto da Recoleta e cruzamos as Av. Corrientes e Córdoba nas idas e vindas, chegamos a pé em Porto Madero, Teatro Colón, Café Tortoni, Galerias Pacífico, uhau!!! Pegamos o Subte (metrô) uma única vez para irmos ver o mercado Dorrego, usamos serviços de táxis para as viagens mais longas, como para ir até o Caminito, por exemplo. Os táxis foram nossa salvação quando nossos pés já não nos davam mais trégua. 


Fizemos a parte histórica e turística de Buenos Aires caminhando tanto de dia quanto a noite. Caminhasse com segurança, dificilmente se cruza um quarteirão sozinho e não se encontra com outras pessoas caminhando, não há o que temer, as calçadas são largas e limpas, cheias de pessoas e de vida, nada comparado com o que temos nas atuais cidades brasileiras onde o medo tomou conta das ruas. 




Além da segurança, ou sensação da mesma, outro fator que talvez faça com que haja muitas pessoas caminhando seja a ausência de garagens nos prédios. A grande maioria dos prédios, que são antigos, não tem garagens muito menos porteiros - e viva a segurança!!!. O fato de os prédios não terem garagens obriga aqueles que possuem carros a estacionar em outros lugares e caminhar até suas moradas. Outro fato interessante nesses dias que desfrutei essa cidade foi caminhar e não encontrar nenhum grande supermercado, nenhum. Como em muitos países europeus todos os mercados estão localizados nos andares inferiores dos prédios. Os mercados, mesmo pertencendo as grandes cadeias, são de tamanho modesto e têm cerca de 7 a 9 metros de largura por 40 a 60 de fundos, e tem todos os produtos de que se precisa, um vinho ou uma comida mais refinada podem ser encontrada a poucos metros e outras vendas especializadas. 


 Carrefour no centro de Buenos Aires 


Ao lado da Catedral Metropolitana, antiga casa do antigo Jorge Bergoglio - novo Francisco, quase em frente a Casa Rosada - sede do Governo Argentino, encontra-se um excelente exemplo do que se pode fazer contra a arrogância do espaço destinado aos veículos automotores. A prefeitura de Buenos Aires ao aumentar a calçada proporcionou aos pedestres uma travessia com menos riscos, tornou o ambiente mais amplo, limpo e seguro. A segurança para o pedestre se dá por dois motivos, primeiro ao diminuir a distância de travessia entre dois pontos da rua diminuindo a exposição do pedestre ao risco, o segundo pela diminuição da velocidade dos carros ao contornar a esquina, o aumento da calçada sobre o asfalto (parte amarela do passeio) reduz o raio de giro dos automóveis forçando-os a diminuir suas velocidades. Exemplos como este devem servir como estudos de caso e multiplicados em todas as cidades mundiais. 






Podemos ver alguns esforços pontuais como este nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte e outras que possuem corpo técnico especializado. Em 12 grandes cidades brasileiras pesquisas por mim em por uma discente, verificamos que em apenas 3 cidades existiam órgãos de mobilidade que faziam o planejamento integrado entre trânsito, transporte e pedestres (calçadas). Podemos dizer que na quase absoluta totalidade das cidades brasileiras o planejamento e a gerência do trânsito, transporte, uso do solo e das calçadas são entidades distintas e que se digladiam entre si pois os objetivos de cada uma dessas entidades na se coadunam. 

Apesar dos avanços recentes como o aumento das calçadas, inclusão de ciclovias e construção de um BRT na Av. 9 de Julio, Buenos Aires é marcada pela arrogância do espaço destinado aos carros. A famosa e outrora Av. 9 de Julio, vangloriada como a avenida mais larga do mundo, é a marca de que algo vem acontecendo não só em terras austrais como no resto do mundo. A destinação de 4 faixas exclusivas aos ônibus no centro da avenida mais famosa da capital portenha é um símbolo e um passaporte para a mudança de um modelo socialmente exclusivista para um modelo inclusivo. 


Av. 9 de Julio antes do BRT


Av. 9 de Julio depois do BRT 


Av. 9 de Julio depois do BRT 

Nem tudo esta perdido, mas as cidades brasileiras estão levando uma goleada portenha.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Prefeituras, prefeituras, prefeituras......



O título poderia ser Governo Federal, Governo Federal, Estado, Estado ..... etc., ficou prefeitura porque efetivamente é quem deve gerenciar as cidades, ou deveria.

Tenho, nesses mais de 20 anos, andado e visitado a trabalho vários entes governamentais. Já estava acostumado a chegar em alguma repartição pública e me deparar com o despreparo quanto ao corpo técnico quanto aos equipamentos etc. Modo geral os equipamentos estão sempre defasados ou simplesmente não há equipamentos, as equipes regra geram, mal treinadas, ou sequer tiveram algum treinamento, mas uma coisa é comum, oconcur memso é o excesso de cargos comissionados, os famosos ASPONES, enfim o famoso me engana que eu gosto,

Lembro-me chegando ao Ministério das Cidades para oferecer apoio financeiro e técnico quanto a questão do Transporte Ativo (caminhada, bicicleta etc.) e me deparar com uma infraestrutura sofrível do Ministério das Cidades, tanto fisicamente quanto tecnicamente. O representante da Fundação que estava doando o recurso disse que nunca havia visto um ministério tão mal instalado (vou usar essa palavra, por ora) quanto aquele.

A visita foi tão decepcionante e a burocracia foi tamanha que desistiram de doar qualquer quantia que fosse. Para se doar tecnologia, capital humano, equipamentos, teríamos que implorar para que os aspones fizessem os papéis (processos) caminharem. Enfim, aquele era o Ministério das Cidades, aquilo que supostamente deveria dar apoio aos entes federados.

A lembrança do incidente no Ministério das Cidades e a falta de comprometimento, tanto de aspones quanto técnicos de carreira, é, em minha opinião, uma das mazelas brasileiras.

Recentemente estive ministrando um treinamento em uma cidade, estávamos indo bem até eu mudar a dinâmica do treinamento. Enquanto era o palestrante falando e os técnicos ouvindo, parecia que a coisa ia bem, mas ao mudarmos o enfoque e passarmos o bastão para que os técnicos assumissem, as coisas começaram a desandar.

Desandaram um pouco antes quando avisei que iríamos trabalhar o modo mais importante da mobilidade urbana. Ao anunciar que iríamos tratar do modo mais importante, e que o modo mais importante era a caminhada. Sim, a caminhada, algo de sinistro ocorreu.

Era como se algo muito ruim tivera acontecido. Um acidente de percurso havia acontecido. Como assim, vamos tratar da caminhada? Vamos sair às ruas para caminhar em conjunto e verificar as condições das calçadas? Vamos caminhar? O que faremos com o sol?

Fiquei chocado com a atitude da equipe. Confesso que foi um golpe. Um golpe violento. Como prosseguir se a equipe encarregada de cuidar da mobilidade urbana enxerga a caminhada como um inimigo? Algo desprezível, como se a caminhada fosse para quem não tivesse outro recurso para se locomover.

Alguns segundos para refazer o raciocínio, respirar fundo e partir para o óbvio lembrar o que não se pode esquecer; que somos seres caminhantes. Apelei. Como algumas das pessoas participantes eram mulheres, perguntei a elas se eram mães, se gostariam de ser, caso não fossem, se fossem, se andavam com seus bebês em seus carrinhos pelo bairro ou pelas redondezas, se conheciam algumas mamães. Contei que fazia feira com Maria, minha filha, e que ia colocando os produtos no carrinho, junto com minha Maria. Ataquei de novo, perguntei se sabiam se alguma idosa conhecida  já havia caido e quebrado algum osso, nisso todas conheciam alguma história. Pedi para que se imaginassem daqui a 20, 30, 40 anos, quando a idade já tivesse chegado, e pedi para que se imaginassem caminhando nessas mesmas calçadas. 

Depois de meia hora de argumentos, contra argumentos, emoções a flor da pele, finalmente admitiam a ideia de pensar nas calçadas. Ainda não sei se resolveram trabalhar em prol da mobilidade, qualquer dia, se souber, eu conto.

 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

PASSAGEM SUBTERRÂNEAS PARA PEDESTRES

O Mappin era uma loja que me fascinava, era um mundo, uma só loja com vários andares, diversidade de produtos, coisa chic. Estou falando dos anos 70, quando íamos lá com meu pai e meus irmãos aos sábados.

Como morávamos em Taubaté, 120 km de distância de São Paulo, os sábados eram realmente diferentes, os domingos não. Tudo em São Paulo era diferente, era o moderno, era o que as cidades seriam. São José dos Campos, cidade localizada no Vale do Paraíba, entre São Paulo e Taubaté, tinha um cartaz enorme com a foto da cidade de São Paulo com os seguintes dizeres: SEGUINDO OS PASSOS DO GIGANTE. Tudo acontecia em São Paulo, o que você quisesse achar, se tivesse no Brasil, você acharia em São Paulo. Hoje, com internet, até na Rebimboca da Parafuseta, Cabróbro ou Jucurutu você encontra o que quiser, é só entrar no ebay e voilà.
  
Lembro de que uma vez saímos do Mappin, caminhamos um pouquinho na calçada e começamos a descer umas escadas, era diferente, bonito, o contraste do mármore e do ferro fundido, caminhamos um pouco, subimos alguns degraus e lá estávamos, sãos e salvos, do outro lado da rua. Quis fazer essa travessia algumas vezes mais, o que custou uma bronca, ou um deixa isso para lá garoto.


Passagem de nível para pedestres  - Antiga loja Mappin (http://www.panoramio.com/photo/81624819)

Outra passagem de nível para pedestres que usei em São Paulo foi a da Avenida Consoloção, esquina com a Av. Paulista. Essa passagem eu usava as vezes no começo dos anos 2000 quando queria pegar um ônibus ou simplesmente caminhar. Lembro da galeria, dos sebos, do cheiro de mofo, nada como a antiga passagem do Mappin. O que a idade não faz com a percepção, agora entendo meu pai.

Atravessei algumas vezes a passagem da Consolação para ver se ganhava algum tempo, pois o tempo semafórico era extremamente demorado para pedestres. Depois de algum tempo desisti dessa corrida pelo tempo, os degraus, alguns estreitos demais, eram quase que uma armadilha. A incerteza de se entrar num “tunel” em cidades brasileiras e dar de cara com alguém mau encarado não é animador. Bom, desisti da passagem de nível para pedestres. Não fui só eu quem desistiu, parece que os romano também desistiram.  

Tinhamos visitado o Coliseu e estamos caminhando pelas ruas de Roma, sem destino, apenas procurando uma cantina quanto me deparo com uma dessas famigeradas passagem de nível para pedestres. Tive de parar, observar e tirar uma fotos. Bom, o que observei; níngém, como em São Paulo, vai por baixo da terra, níngém é mais tatu para ficar entrando nos buracos. Não é lógico forçar as pessoas que gastam sua própria energia vencer diferentes gradientes para se chegar ao mesmo ponto no plano. Os italianos, como os paulistanos, preferem ir por cima, sem gastar sua preciosa energia e sem perder tempo.

Tanto em São Paulo quanto Roma as interseções foram redesenhadas. Em Roma incluiram pequenas ilhas no viário, diminuindo assim a exposição do pedestre o tempo e a distância do pedestre no viário, consequentemente aumentando a segurança dos pedestres. Tal como em Roma, em São Paulo ampliou-se os passeios e as novas faixas de segurança tem cerca de 8 metros de comprimentos, as maiores que vi no Brasil.




Aos pouco, bem aos poucos, vamos deixando a visão de que o carro é quem deve ter a preferência. Vamos novamente redesenhando as cidades para que as pessoas possam desfrutar das ruas, dos espaços urbanos.


Para mim é uma loucura pensar em dar prioridade ao carro em interseções. Bem essa minha mudança é recente, até bem pouco tempo eu achava “natural” que os carros é que deveriam ter a preferência sobre nós. Que loucura. O processo de desipnotização é lento e gradual. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Como cuidamos de nossos colegas


No poste anterior havia falado da imagem em homenagem ao dias dos Pais. Obviamente, aqueles que amam seus pais e que tiveram a benção de terem nascido em um berço que lhes nutriu amor, conhecimento, compaixão etc., e que souberam aproveitar o exemplo materno e paterno são definitivamente abençoados, pois tiverem desde a tenra infância o exemplo em casa, já aqueles que não tiveram esta benção tem um caminho longo a percorrer na construção destes valores.

O querer bem ao outro, a preocupação com o próximo é o tema central das religiões, ou seja, está no âmbito da verdadeira filosofia aplicada. Esta filosofia aplicada supre e aperfeiçoa os ensinamentos maternos e conduz ao entendimento mútuo. Os que evoluem na filosofia aplicada percebem e sentem o próximo como extensão de si mesmos e procuram transformar as sociedades para melhor.

A preocupação com o próximo evolui com as sociedades mais adiantadas e estas, por sua vez, evoluem também seus sistemas de transportes. A evolução busca a diminuição das iniqüidades, nos sistemas de transportes ocorre pela provisão da infraestruturas que permitam que todos sejam tratados de maneiras diferenciada mas que atinjam os mesmos objetivos.

Os passeios são uma medida da evolução, caminhar pela Champs Élyséss, na Broadway, nas Ramblas e Ruas Augustas etc. mostra o quão os países se importam com seus concidadãos. Respeitar os limites de todos os cidadãos e tratá-los como seres iguais provendo infraestruturas diferenciadas que acomode-os com conforto e segurança é, definitivamente, uma das medidas de quão evoluída está a sociedade naquele momento.

Enquanto não dermos um tratamento igualitário à todas as pessoas no sistemas de transportes, não poderemos almejar sermos chamados de evoluídos. A segregação e o privilégio de determinados meios de transportes sobre outros é uma forma de discriminação, ainda mais quando colocamos outras pessoas sobre risco de morte ou negamos-lhes o direito à locomoção em condições de igualdade com outros cidadãos. Nestes sistemas não há compaixão, não há a preocupação com o próximo, não há nada quase nada de bom nesses sistemas.

Por que devemos expor nossos concidadãos aos riscos ou fazer com que os mesmos circulem em sistemas inferiores a aqueles que possuem ou fazem uso de outro meio de transporte que demanda maior capital? Por que investimos e deixamos os governos investirem mais em um sistema de transporte que em outro, ainda mais quando se produz mais inequidades?

Para muitos, a resposta simplista, é que é assim mesmo, sempre foi, sempre será. Pena que eles ainda não foram educados e/ou não tiveram a oportunidade de conhecer outras sociedades. Para outros, não há problema em expor os outros aos riscos de morte, a mais baixa filosofia ocupa-lhes a mente e o egoísmo embota-os de maneira perversa.

A mudança é difícil, lenta e cansativa, mas há que ser feita. É imperativo para as sociedades que evoluem que a caminhada seja o meio de maior privilégio em um sistema de transporte.

Resumindo a inequidade em sistemas de transportes.



Principal entrada de uma universidade brasileria

domingo, 10 de agosto de 2014

O poder da imagem


Hoje, dias dos pais, meu amigo, ao abrir o e-mail institucional de uma universidade, se deparou com uma figura que não tem nada a ver com a instituição. Segundo meu amigo, ele não faz a mínima idéia do por que foram escolher essa figura e eu não faço idéia do porque ele me enviou.


 A Universidade dele, bem como as demais instituições de ensino públicas, aquelas que deveriam estar na vanguarda do pensamento e do exemplo, mostram-se ser as mais reacionárias e retrógradas quanto a questão da mobilidade.

Raríssimas exceções encontraremos nas universidades brasileiras um ambiente preparado para receber e acolher os estudantes e funcionários. Estamos na pré-história da mobilidade, do desenho universal, do privilégio do humano sobre a máquina. Via de regra, nessas instituições, dão a preferência ao carro, fazem grandes avenidas, deixam a velocidade livre (colocam umas plaquinhas mequetrefes de 30km/h), devotam amplos espaços aos estacionamentos, depois fazem umas calçadinhas chinfrins e nada, nada de infraestrutura cicloviária. Como esperar que nossa sociedade seja diferente?

Mas, no dia dos pais, colocam uma fotinha bonitinha e, é isso..... 

Esse amigo me contou que quando estavam fazendo o plano de circulação da tal universidade, foi indicado para participar do plano de mobilidade por ser conhecido pelo trabalho na área em questão. Alguns professores fizeram parte, bem como um técnico e uma discente. Começaram a fazer as reuniões para discutir e introduzir os conceitos sobre mobilidade, traffic calming, sistema cicloviário etc. Para surpresa do meu amigo, um engenheiro do setor de infraestrutura veio até ele e falou que não deveríam fazer essas reuniões e discutir alternativas, afinal a reitoria já havia comprado o plano de mobilidade e necessitavam apenas o OK ao “plano”. Conclusão, já que haviam decidido tudo e somente precisavam de um mané para validar, nunca mais meu amigo apareceu na tal comissão, ele nem sabe como terminou. Sabe que implantaram exatamente o que compraram. E que planinho maltrapilho, é só visitar a instituição.

Mudou a reitoria. Ele me contou que foi tentar interferir na construção das calçadas e da circulação, disse que falou com o arquiteto, com o reitor, com o vice.......

 As calçadas foram um episódio trágico, se não fosse cômico. Meu amigo disse que foi até a reitoria, lá pediram para que ele falasse com o arquiteto. Ele foi, encontrou-se com o arquiteto e perguntou qual teria sido o parâmetro utilizado para planejar estas calçadas...




Segundo meu amigo, a resposta do arquiteto foi: planejei de acordo com o manual, duas pessoas lado a lado, largura recomendada, ponto. No mesmo momento da resposta, meu amigo pediu que o arquiteto olhasse para a rua, nesse momento vinham uns 4 ou 5 alunos caminhando pelo meio da rua, ele argumentou:

 _Olha! Aluno anda em bando, as calçadas aqui deveriam ter no mínimo 4 metros, as pessoas gostam de caminhar lado a lado. Quando as aulas acabam todos saem juntos, as calçadas deveriam comportar essa tsunami de alunos.


 O “ arquiteto” olhou meu amigo como se ele fosse mais um daqueles professores loucos, insanos. Como assim calçadas de 4 metros (no mínimo)? Aproveitem e reparem na foto, ela é pós construção da calçada. Onde vocês acham que a calçada esta? Depois dos carros, lógico. Primeiro acomodar os carros, depois os alunos, certo?

Meu amigo me disse que ao fazerem as primeiras aulas do curso de eng. de transportes, ele pergunta aos alunos o que eles acham das calçadas da universidade, se são boas, ruins, adequadas, convenientes etc. As respostas invariavelmente são apáticas, afinal não poderia ser diferente. 

Após algumas aulas, alguns exemplos mostrados no exterior e em algumas raríssimas cidades brasileiras, após verem as boas práticas, o olhar dos discentes muda por completo. Todos os semestres o professor e os alunos saem da sala de aula e ficam ali na calçada, no laboratório ao ar livre, se divertindo em como não fazer, depois têem outras aulas práticas no centro da cidade, mas o que eles mais gostam mesmo, é do laboratório que a universidade gentilmente lhe deu (somente para as aulas de como não fazer). 

Meu amigo espera que um dia a universidade desmonte esse horror e refaça como deveriam ter feito.

Meu amigo reflete que a semente da mudança foi plantada, um dia frutificará, assim ele crê.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013


As calçadas portuguesas
Quando nossos patrícios cá chegaram não encontraram uma só calçada, era tudo mato, bicho para tudo quanto é lado. Naquela época os proprietários estavam obrigados a limpar a frente de suas casas aos domingos para que as pessoas pudessem ir a igreja sem encontrar cobras, aranhas etc.
O costume de cuidar da calçada em frente ao lote ficou enraizado no conceito brasileiro, nossa legislação, com raríssimas exceções, confirmou a obrigatoriedade do proprietário da manutenção do passeio. Talvez este tenha sido nosso grande erro.
Imaginem se cada proprietário tivesse que zelar pelo belo e lindo asfalto na frente de sua casa? Como será que ficaria o pavimento? Fulano mandou asfaltar hoje, sicrano viajou e nunca mandou asfaltar, beltrano há anos não manda recapear. Conclusão, se o asfalto tivesse a mesma lógica de construção e manutenção de nossas calçadas, teríamos ruas iguais ou em piores condições que as nossas calçadas, visto que o poder destrutivo de carros e caminhões no pavimento é infinitamente maior que a nossa massa corporal.
O brasileiro, ao contrário do português, não conseguiu dar o salto de qualidade na mobilidade urbana no principal meio de transporte: a caminhada.
Nossa história mostra que no começo tentamos copiar as calçadas portuguesa, basta olhar o calçadão de Copacabana, maravilhoso por sinal. Mas, as calçadas portuguesas, ah!!. Com certeza são maravilhosas.



As calçadas portuguesas literalmente invadem os espaços destinado ao deus carro e seus tentáculos permitem que os seres humanos desfrutem lugares maravilhosos, como a Rua Augusta em Lisboa, fechado para carro e aberta para a vida.



Em vários pontos de Lisboa as calçadas continuam soberanas e não se curvam aos carros.

Em frente as maravilhosas igrejas portuguesas, um traffic calming para proteção e deleite dos fiéis admiradores da cidade humana.

As vezes nem é preciso reformar as calçadas, basta limitar o acesso dos veículos motores aos residentes.

domingo, 14 de abril de 2013

O Santo e o Profano


Abaixo da linha do equador vale tudo. Santo e profano, profano e santo, quem sabe a quem rogar?
No desespero, roguemos ao bom senso, coisa rara de se ver nessas bandas.
Recentemente a igreja matriz de Mossoró/ RN, para se “proteger” dos fiéis, cercou a igreja com grades. Deve ser a tal crise de fiéis que assola a igreja. Se até a igreja, representante das leis divinas, está se “cercando”, talvez seja melhor isolá-la mesmo.
Para aliviar as almas que porventura passem pelo largo da igreja e tentem adentrá-la, a prefeitura, zelosamente, pintou algumas zebras no asfalto para direcionar os fiéis e os não tão fiéis, afinal aquele pedaço de rua pertence a todos cidadãos deste cidade. 

Como a câmara municipal é vizinha a igreja, ou seja, nossos nobres representantes tanto dos céus quanto da terra se abrigam na mesma quadra, talvez por isso resolveram de uma vez por todas comungar todos os espaços e pecados urbanos.
A igreja tirou o pedaço de calçada dos pedestres e os nobres vereadores, com suas carruagens modernas, tiraram o pouco da segurança dos incautos pedestre, que agora não tem alternativa se não passar longe, tanto da igreja quanto da câmara, para se sentir seguro, talvez seja prudente mesmo.
Vou parar a postagem por aqui, afinal ficaria deselegante comentar sobre o hábito que alguns motoristas/seguranças tem de ficar no conforto dos ar-condicionados das carruagens, claro que sempre com o motor ligado, não importando quanto tempo tenham de esperar até que nossos santos representantes do legislativo possam ser recebidos.

Santos poderes












  




  
Se os representantes do "legislativos" não se acham obrigados a cumprir com as leis que eles mesmos fazem, o que esperar da população?





domingo, 14 de agosto de 2011

CALÇADAS E CABELOS, QUANTO TRABALHO

Assim como as mulheres tentam alisar seus cabelos e evitar cachos mal formados através das famosas “chapinhas”, a sociedade brasileiras um dia, queira Deus, tentará “alisar” suas calçadas. O “alisamento” de nossas calçadas seria a uniformização das dimensões mínimas de largura, padronização de inclinações mínimas e máximas, aplicação de pavimentos ou revestimentos que propiciem a caminhada etc. Assim como os cabelos pós chapinha tendem a voltar a sua forma original, as calçadas para serem alisadas e não voltarem a forma original precisam de um novo pacto social.

Temos sidos educados e conscientizados para o trânsito motorizado, nos ensinam nas escolas o código de trânsito, aparelham-se municípios e estados com uma infraestrutura para financiamento, operação e fiscalização para que o trânsito motorizado possa fluir. Constroem-se ruas, vias, rodovias com larguras mínimas, inclinações máximas que garantam a segurança e fluidez do trânsito, gerenciam a vida útil do pavimento para que se possa recuperá-lo de maneira cada vez mais eficaz, fiscaliza-se o fluxo continuamente para que não haja interrupção, gastam-se recursos consideráveis para que o sistema viário motorizado esteja a disposição de quem deseja usá-lo. A chapinha no sistema viário para o trânsito de veículos motorizados é aplicada constantemente, propiciando um trafegar suave pelas curvas e retas das cidades e estradas.

Por outro lado, a chapinha aplicada nas calçadas brasileiras não tem sido eficaz. Não investimos na conscientização dos benefícios da caminhada, que são muitos e bons para o coração, para a amizade, para a paquera, para o comércio do bairro em que moramos etc. Não criamos padrões mínimos de largura, inclinação, tipo de pavimento, do que pode e, principalmente, do que não pode ficar sobre as calçadas, permitimos que lixeiras, orelhões, postes e todo tipo de obstáculos fiquem eternamente poluindo o ambiente em que transitamos. Estamos tão acostumados com os obstáculos nas calçadas que pouco nos importamos com eles, achamos que eles nasceram ali e não há por que removê-los. Temos sido incapazes de mostrar para a sociedade que o ambiente no qual se caminha deveria ser seguro, limpo e confiável. Estamos anestesiados pela mesmice, pela feiúra a pouca serventia de nossas calçadas, nos sujeitamos a andar pelos bordos das vias como se estas fossem nossas calçadas, nos colocamos em situação de risco como se fosse o normal, enquanto o normal deveria ser a preocupação com o nosso bem estar e de nossos concidadãos.

Pouco nos importamos conosco mesmos quando temos de caminhar. Nos sujeitamos a tropeçar em um buraco que nunca foi tampado, pulamos rampas construídas para que os carros acessem suas garagens, escorregamos em pedras assentadas inadequadamente escolhidas para servirem de pavimento, nos sujeitamos a todas sorte de mal trato e nem assim nos revoltamos, nem reclamamos.

O trabalho para alisar as calçadas vai ser difícil, a caminhada, longa, mas será melhor do que acabar careca.